Mais uma vez, centenas de milhares de bacharéis em todo o território brasileiro levantaram-se cedo, tomaram um café da manhã apressado e, certamente, receberam uma enxurrada de 'posts', via facebook, desejando-lhes boa sorte na prova de ontem, a primeira fase do exame de admissão nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil/OAB (popularmente conhecido por "Exame da Ordem").
Horas depois e após 80 questões "tecnicamente" respondidas, o que vemos é a predominância de rostos frustrados. Vítimas fragilizadas, essas viram alvos fáceis dos chamados "cursinhos preparatórios", empresas que lucram (e cada vez mais) sobre a desgraça alheia. Mas seria o "Exame" algo tão difícil assim?
Posso-lhes dizer, com total propriedade (pois fui aprovado no Exame 01/2010, ainda no 5º ano da faculdade, sem fazer “cursinho” - nessa edição, acredito que 87% dos examinandos tenham sido reprovados), que o "Exame da Ordem" não é nada além de uma prova final, onde o bacharel em Direito deve demonstrar, oficialmente, que conhece minimamente acerca das teorias que embasam a Ciência do Direito, que pode operar com a legislação básica, que possui noções de ética e disciplina do advogado e, é evidente, que sabe redigir, concatenando logicamente suas ideias.
Claro, há certo nível de dificuldade nas questões que são aplicadas aos examinandos, mas que, certamente, é compensada pela exigência de uma nota relativamente baixa (50% na primeira e 60% na segunda fase) e um número atualmente reduzido de questões (apenas 80). Mas, então, qual seria o mistério que estaria por detrás de tanto fracasso?
Além do já conhecido "baixo nível" da imensa maioria de nossas instituições de ensino - que mercantilizam a educação e, às vezes, mentem descaradamente para o "consumidor" (há uma propaganda amplamente divulgada que diz que determinada instituição tem "100%" de aprovação em Direito. Mas só se a base aplicada for igual 0. Onde será que está o Ministério Público nessas horas?) -, há uma grande parcela de culpa dos próprios estudantes.
Na Rua Ministro de Godói, em frente à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/PUC-SP, jovens das classes média e alta paulistana desfilam radiantes, falam de modo empolgado sobre os mais variados assuntos, outros paqueram, alguns fumam e todos bebem (de preferência, no “3ª Aula”). Esta cena pode ser vista de segunda a sexta-feira, das 19.00h às 24.00h, mas somente durante o período letivo.
Cinco anos após algumas centenas de litros de cerveja e milhares de horas de “papo furado”, eis o resultado óbvio: reprovação. De acordo com a última divulgação de resultados da OAB, a PUC/SP, instituição que possui uma das faculdades de Direito mais prestigiadas do Brasil, não conseguiu a aprovação de sequer 50% de seus estudantes, algo que, se não comprova, dá fortes indícios de que a política do “mamão com açúcar” (sim, é quase impossível ser reprovado na PUC/SP – ao menos, nunca vi alguém ser reprovado nos cinco anos em que estive por lá...e olha que eu passei por quatro turmas!) e mensalidades exorbitantes (atualmente, a mensalidade beira os R$1.750,00) não está sendo bem sucedida. E o mesmo ocorre no Mackenzie e, inclusive (mas em menor proporção), na faculdade de Direito da USP.
A geração atual (na qual eu me enquadro), especialmente nas classes mais abastadas, espera um mundo de facilidades, onde os resultados sejam altos e imediatos e, sobretudo, que demandem pouco ou nenhum esforço.
Mas, como o mundo real não é esse conto de fadas, acabam descobrindo com as pedras da vida que o sucesso requer trabalho – com as raras exceções do mundo moderno, onde “mostrar-se” publicamente pode significar “merecer” um prêmio de R$1,5 milhão ou belos contratos com revistas eróticas -, mas muito trabalho, mesmo!
Se o "Exame da Ordem" é um grande desafio? Obviamente, não é nem o começo.
Parabéns pelo texto Bruno, muito bem escrito. Concordo com muitas coisas que você disse, porém ainda vejo a OAB como maior aproveitadora desse "fracasso". O que seria da OAB se não fosse dessas instituições de "baixo nível", que todo ano abastece o caixa da Ordem e forma advogados para manter essa instituição?
ResponderExcluirO buraco é mais em baixo e não é uma prova no final da graduação que vai dizer quem é competente, acredito que a própria Ordem deveria fiscalizar melhor as faculdades em relação ao ensino, avaliando a faculdade pela sua estrutura e pelo que é feito durante os cinco anos e não por alunos que logo após a faculdade já pulam para um cursinho decorar tudo e passar na prova. Deve-se lembrar também que um dos motivos dessa porcentagem ter diminuído se dá pelo fato de que desde o ano passado aqueles que ainda cursam o quinto ano da faculdade podem fazer a prova.